07/07/2008

Sermão da Sexagésima



Padre António Vieira, nasceu em 1608, em Portugal, e morreu em 1697, no Brasil. É ele a mais alta personalidade do Barroco luso-brasileiro. Durante seus 89 anos de vida, Padre Vieira participou activamente da Companhia de Jesus e da política portuguesa. Seu nome permanece como o maior orador jesuítico em língua portuguesa, famoso por seus Sermões.

Padre Vieira pensou todas as questões em pauta em sua época, o que explica a vastidão de sua obra e de sua acção política. É impressionante a quantidade de desdobramentos que, ultrapassando as limitações sacerdotais, Padre Vieira apresenta em sua actuação. Ele foi religioso, padre, missionário, teólogo, exegeta, pregador, escritor, conselheiro, político, diplomata, defensor de índios, negros e cristãos novos, observador dos astros e da natureza, defensor da tolerância religiosa, desafiador da Inquisição, perscrutador das Escrituras, adivinho do futuro. Toda essa dinâmica acabou resultando em fortes e fatais dissabores políticos e religiosos contra ele.

No entanto, apesar das cassações religiosas, acusações heréticas e exílios, Padre Vieira deixou-nos uma vasta e importante obra. Escreveu, além de mais de quinhentas cartas, obras de profecia: História do Futuro, Esperanças de Portugal e Clavis Prophetarum. E, claro, os Sermões (15 volumes, 13 publicados entre 1679 e 1690, e 2 volumes entre 1710 e 1718).

O Sermão da Sexagésima é, talvez, um dos seus sermões mais famosos. Pregado na Capela Real, em Lisboa, em Março de 1655, abre a série de quinze volumes dos sermões de Padre Vieira, servindo de prólogo, ao mesmo tempo que encerra uma arte de pregar, inspirada pela dialéctica conceptista, indo contra os excessos gongóricos.

Espécie de profissão de fé da oratória conceptista, nele o pregador examina as condições indispensáveis para que faça fruto a palavra de Deus. Para isso, Padre Vieira traça paralelos com a parábola bíblica do semeador. Essa parábola pode ser encontrada no Livro de São Lucas.

"Do trigo que deitou à terra o semeador uma parte se logrou, e três se perderam. E por que se perderam estas três? A primeira perdeu-se, porque a afogaram os espinhos; a segunda, porque a secaram as pedras; a terceira porque a pisaram os homens, e a comeram as aves. Isso é o que diz Cristo; mas notai o que não diz." Padre António Vieira, em "O Sermão da Sexagésima."

O orador utiliza-se de passagens bíblicas estreitamente vinculadas às ideias que procura expor. Diante do público, o orador consegue atingir os fiéis de modo directo e insinuante. Estes, seduzidos pelo entrelaçamento das odeias, tomados de surpresa pela avalanche diabética, deixam-se facilmente conduzir pelo orador. Utilizando uma linguagem simples, inteligente e filosófica, digna de Sócrates e Platão, Padre Vieira envolve o ouvinte, fazendo-o chegar às conclusões que ele almeja, ou seja, à verdade dos textos religiosos. Com toda a sedução de sua retórica, o resultado é um só: o ouvinte assimila a mensagem do pregador.

Além das parábolas bíblicas, Padre Vieira utiliza jogos de ideias geniais ("Para um homem se ver a si mesmo são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos.") para, logo em seguida, associá-los ao seu objectivo religioso ("Que coisa é a conversão de uma alma senão entrar um homem dentro de si mesmo, e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz, e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora, suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador, e do ouvinte; por qual deles havemos de entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?")

No Sermão da Sexagésima, Padre Vieira conduz o ouvinte, através da associação da parábola do semeador, até a conclusão de que, se a pregação/ semeadura falha, isso é devido a alguma falha do pregador/semeador, nunca da palavra de Deus ("Sabeis cristãos, por que não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores"). Visto que, a palavra de Deus, mesmo que semeada em pedras, espinhos e má terra, ou seja, pregada para maus ouvintes, sempre acaba provocando algum efeito ("Os ouvintes ou são maus ou são bons, se são bons, faz neles grande fruto a palavra de Deus; se são maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito.").

É interessante notar que, mesmo escrito, o texto consegue ser extremamente persuasivo. Agora, imaginemos Padre Vieira pregando ao vivo, com sua postura, entoação e carisma. Nos dias actuais, com toda essa potência retórica, se Padre Vieira fosse um candidato político, com certeza ele seria eleito. Se fosse um pastor, ou um padre-carismático, arrebanharia multidões de fiéis.