21/12/2012

11/11/2012

O "caso" de Alberto Caeiro



“Creio na vida como um malmequer”



David Mourão-Ferreira
“Alberto Caeiro, encarado sob o ponto de vista estético – ou melhor: sob o ponto de vista formal -, é um poeta medíocre. Não é necessário encobri-lo, porque tal afirmação não ensombra de maneira nenhuma o indiscutível valor de Fernando Pessoa.
De resto, Fernando Pessoa não desejou fazer dele um artista. Quis apenas criar um poeta, em que existia simplesmente o desejo, natural e espontâneo, de contar “a espantosa realidade das coisas”. Por isso, não é legítimo que se vá criticar, nos poemas de Alberto Caeiro, a ausência daqueles valores estéticos que o próprio Pessoa desejou que estivessem ausentes. Eça de Queirós, numa carta a Mariano Pina sobre a crítica que Fialho de Almeida fizera a Os Maias, diz: “Criticar o livro como ele faz, não pelo que é mas como devia ser, é ridículo.” Seria também ridículo criticar os poemas de Caeiro não pelo que são, mas pelo que deviam ser.
*
Contar “a espantosa realidade das coisas” é, como já disse, o desejo de Alberto Caeiro. Fiel a esta orientação, o poeta de “O Guardador de Rebanhos” condena tudo o que, de qualquer forma, possa adulterar a realidade. Quanto a ele, há dois fatores que especialmente contribuem para isso:
  • certa imagística poética
  • a atribuição de falsas significações aos objetos e fenómenos da Natureza.
Logo aqui, Alberto Caeiro se revela um poeta totalmente oposto ao sentido geral do lirismo português. Assim, Alberto Caeiro diz as coisas o mais objetivamente possível, sem recorrer a imagens, símbolos ou quaisquer outros processos artísticos, que desvirtuariam a ideia, ou antes a expressão da sensação recebida:
“Procuro dizer o que sinto
Sem pensar que o sinto.
Procuro encostar as palavras à ideia
E não precisar de um corredor
Do pensamento para as palavras.”
(do XLVI poema de “O Guardador de Rebanhos”)

Por outro lado, Alberto Caeiro não descobre na Natureza senão o que nela existe:

“Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada,
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.”
(dos “Poemas Inconjuntos”)

Em resumo, com estas premissas, Alberto Caeiro seria um poeta inapto para, com base uma determinada circunstância momentânea e particular, tentar atingir um plano de intemporalidade e de generalidade. Alberto Caeiro fica sempre no real e só no real, no momentâneo e só no momentâneo. Não se pode dizer que este processo simples e direto de observação e de expressão da natureza seja superior ou inferior a outros processos, nomeadamente os usados pelo nosso lirismo tradicional. É apenas um processo diferente. E, também, talvez mais legítimo…
Não podemos pois atacar a poesia de Alberto Caeiro pelo “processo” que ele usou. Isso implicaria, da parte do crítico, uma posição igualmente atacável, como defensora de um outro “processo”. O que cabe ao crítico fazer é a análise da coerência entre a obra e o processo adotado. Seguindo este princípio, podemos atacar a poesia de Alberto Caeiro. Atacá-la porque ela não representou o que o autor desejava.
Duma leitura atenta da sua obra, resulta esta impressão: a aludida poesia da natureza não chega a existir. Nos versos de Alberto Caeiro não há poesia; há constantes afirmações da sua existência; frequentes definições da maneira de o poeta encarar a “espantosa realidade das coisas”, porém, a poesia não chega a existir. E se aqui e ali aflora, vem sobrecarregada da preocupação de tudo querer afirmar e definir. Pode-se dizer, em resumo, que toda a obra de Alberto Caeiro é um manifesto de poesia, quase totalmente irrealizada. (Exceptuemos o “Oitavo Poema do Guardador de Rebanhos” – sem dúvida, o mais poético dos seus poemas.)
Alberto Caeiro, “único poeta da Natureza” é um mito que seria um facto, se Caeiro tivesse realizado o que está implícito e pressuposto nas suas afirmações e definições. Caeiro reunia todas as qualidades para criar a verdadeira e autêntica poesia da Natureza – tal como Fernando Pessoa a concebia. Era um homem sem cultura nem pensamento a desvirtuar-lhe a sensibilidade inata.
Guilherme de Castilho dedicou, no nº48 da “Presença”, um artigo a Alberto Caeiro. Nesse trabalho – um dos poucos existentes sobre o poeta do “Guardador de Rebanhos” – diz ele: “… nessas breves coleções de poemas, como havemos de ver, encontramos nem mais nem menos que as bases essenciais
  • duma metafísica,
  • duma estética,
  • duma teoria de conhecimento
  • e até duma ética
  • duma religião
  • e duma sociologia.”
Absolutamente de acordo. Mas foi, sem dúvida nenhuma, a intenção marcada de criar essa metafísica, essa estética, essa teoria do conhecimento, essa ética, essa religião, essa sociologia, que não deixou revelar os valores poéticos.
Como personagem do drama mental de Fernando Pessoa – e é assim que devemos considerar todos os seus heterónimos -, Alberto Caeiro está absolutamente certo e coerente. Caeiro exprime-se como Pessoa desejou que ele se exprimisse. O mal é que esta expressão só muito raramente atinja significação poética.
O “caso” de Alberto Caeiro apresenta-nos um exemplo do perigo de criar, num campo artístico, segundo uma atitude preconcebida ou figurino previamente delineado.”

(David Mourão-Ferrera, in Nos Passos de Pessoa, Ensaios, 1988)




 

10/11/2012

Alberto Caeiro




Considerado por Fernando Pessoa como Mestre dos heterónimos e do próprio Pessoa ortónimo, Caeiro exprime e representa a visão marcadamente não-humana, primitiva e "pura" da Natureza e até do Homem. Despido da emoção (da subjetividade) e anulada toda a cultura (a Razão) que o Homem foi criando (Alberto Caeiro não possuía mais do que a instrução primária, era "guardador de rebanhos" e vivia num outeiro...), este heterónimo faz da pura sensação e do objetivismo (absoluto) o "ideário" da existência e da sua escrita. Uma poesia feita duma matéria habitualmente não-poética, em que a linguagem procura estar o mais próxima possível das coisas, das sensações, pois as ideias e os conceitos são um obstáculo ao puro sentir e ao puro viver. E as palavras, intencionalmente despidas de artifícios retórico-estilísticos, bem como o versilibrismo, procuram, assim, ser o espelho sem mancha dessa ingenuamente sábia "ciência de ver". Como o Mestre não tem preocupações de ordem metafísica e social (como acontece com Pessoa e com Álvaro de Campos), é a única criação pessoana que conhece a Verdade das coisas - porque não as pensa. "Com filosofia não há árvores, há ideias apenas"...Mas é precisamente pelo facto de a Verdade não ser transmissível, que melhor se compreende, por oposição, o drama de Pessoa-Campos.